Agricultura Urbana

Agricultura Urbana e Internet: uma relação frutífera

Nos dias atuais, cultivar o próprio alimento nas cidades é cada vez mais uma prática de quem mantém uma mão na terra e a outra no virtual. Sobretudo para os hortelões urbanos iniciantes, a internet virou uma espécie de jardineiro fiel, onipresente, poliglota, dono de um armazém gigantesco de informações contendo milhares de receitas antigas, descobertas potencialmente fortuitas, além de tantas outras soluções de última geração que ele distribui gratuitamente sempre que decidimos nos conectar a ele.

Quem utiliza a internet para aprender o passo a passo da agricultura urbana, ou qualquer outro conteúdo que envolva a produção individual ou comunitária de alimentos saudáveis, consegue interagir cotidianamente (se desejar) com um batalhão de jardineiros, agrônomos, biólogos, paisagistas, engenheiros, arquitetos, administradores, psicólogos, donas de casa, aposentados, estudantes… Não importa a profissão na carteira de trabalho, o título principal de quem integra esta crescente rede é a atitude de cada um. As fotos das colheitas muitas vezes são os maiores troféus dessa gente que faz, que planta e colhe no mundo de verdade e se vale do virtual para ir além, servindo igualmente de estímulo e motivação a tantos outros com fome de aprender, ensinar, trocar e plantar (plantar, e plantar…) em cada canto da cidade que ainda se encontra vazio de sentido e de vida.

Hortelões Urbanos: um exemplo de um espaço de troca e aprendizagem

 

Fonte: Guia da semana – Saiba o que é e como funciona um Hortelão Comunitário

Um exemplo interessante de espaço desta natureza aqui no Brasil chama-se Hortelões Urbanos.
Um grupo aberto do Facebook criado por Claudia Visoni, uma jornalista, pioneira e ativista em agricultura urbana em São Paulo. O espaço conta hoje com quase 65 mil pessoas de vários lugares do Brasil (e do mundo, talvez). São centenas de publicações e intervenções diárias de usuários compartilhando dicas, dúvidas, informações, fotos, referências, eventos de diversos países, muito estímulo e inspiração para quem já cultiva e acredita que plantar o próprio alimento e estar aberto ao aprendizado coletivo sobre agricultura urbana é um bom caminho a ser percorrido.

Cabe todo tipo de gente interessada

Espaços virtuais como esse acolhem todo tipo de gente: tem aqueles que plantam desde sempre, outros que estão pensando em começar, existe também quem já colhe muita coisa no quintal de casa ou na varanda do apartamento, inclui aqueles que distribuem seus «likes» até criar coragem de começar, não esquecendo os comentaristas de plantão com suas dicas valiosas e outras nem tanto, tem também aqueles que se dizem exterminadores profissionais de plantas (até das espécies mais resistentes), mas que estão sempre ali perseverantes em busca de compreender o porquê das coisas quando o desafio é cultivar o próprio alimento nas grandes cidades.

Eu busco, você busca, nós buscamos

 

Enquanto escrevo este artigo fico imaginando quantos milhares de pessoas pelo mundo estão digitando, neste exato momento, em grandes buscadores como Google, Bing, Yahoo… palavras-chave como «horta urbana», «como plantar», horta comunitária, «jardim comestível», «horta em casa», entre tantos outros termos associados às práticas de cultivo de alimentos em espaços urbanos. E se somarmos aqueles que vasculham agora as redes sociais como Facebook, Instagram, Youtube em busca de grupos, imagens, vídeos, tutorais, informações, dados, dicas, pessoas, lugares e fornecedores ligados ao universo da agricultura urbana? Quantas curtidas, compartilhamentos, comentários, novas publicações, novos canais, posts, aplicativos e conteúdos diversos ligados ao plantio de alimentos em cidades serão gerados até que eu termine a redação deste artigo? O resultado dessa soma é bem menos importante que os frutos que surgem da rica interatividade nesses espaços virtuais de livre troca e aprendizagem e que contribuem para o fortalecimento do movimento global de promoção e crescimento da agricultura urbana enquanto prática independente e também como política pública.

Plantar é coisa séria para amadores

Como você já deve ter percebido, o nosso foco aqui não é a «agricultura urbana profissional» voltada para a produção de alimentos em zonas urbanas e periurbanas e que envolve agricultores familiares que contribuem para uma ocupação inteligente de áreas ociosas das cidades, favorecendo o aumento da produção de alimentos saudáveis mais acessíveis em uma dinâmica economicamente mais justa e ambientalmente sustentável. Ainda que o volume de produção e comercialização dessas famílias esteja entre os principais indicadores mensuráveis da evolução da agricultura urbana em um determinado território, as iniciativas locais de cultivo doméstico e comunitário, sem pretensão produtiva e comercial, que vêm ganhando cada vez mais força e visibilidade no cenário urbano.

Aqui, o nosso olhar volta-se para os amadores ou amantes (se preferirem) da horticultura sustentável em cidades. Refiro-me às pessoas que pensam de forma crítica quando vão às bancas de hortifruti das grandes redes de supermercado, aquelas em busca hábitos alimentares mais saudáveis, as que compram suas cestas semanais de orgânicos, além daquelas que já compreendem que plantar suas verduras, legumes e frutas em casa ou junto da vizinhança não é apenas um hobby, ou um pretexto de fazer uma bela imagem para «postar no Insta», mas é sinônimo de reflexão e de questionamentos importantes sobre as formas de ocupação dos espaços públicos e privados urbanos, além da transformação de consciências. Talvez esse último ponto seja o mais desafiador, muito mais que fazer circular conhecimentos técnicos fundamentais para a prática e para o sucesso dos processos envolvidos na produção do próprio alimento.

Problemas de todos, soluções de muitos

Praticar agricultura urbana é também trazer à mesa, compartilhar e enfrentar conjuntamente uma série de desafios globais de ordem cultural, politica, econômica e social. Questões interconectadas que em alguma medida estão ligadas à sobrevivência da vida no planeta e que já afetam em escala crescente a saúde de cada um de nós e também do coletivo (crise hídrica, acumulo de lixo, epidemias, aquecimento global, para citar apenas alguns).

Todos somos afetados pelos padrões de consumo não sustentáveis e amplamente disseminados, quer sejamos ainda reprodutores dos mesmos ou não. Todos somos impactados pelos efeitos nocivos da agricultura convencional no meio ambiente e nas pessoas, quer sejamos ainda consumidores de produtos cultivados com agrotóxicos ou não. Da mesma forma que compartilhamos os danos, dividimos igualmente e conjuntamente a responsabilidade pela reversão desse quadro pouco animador. Quando nos engajamos, ainda que virtualmente, em espaços dedicados à agricultura urbana, baseada em princípios sustentáveis e saudáveis, saímos da passividade e nos tornamos agentes em um processo lento e complexo que envolve a alteração de costumes, hábitos de vida e de consumo muitas vezes automatizados (como o descarte indiscriminado do lixo doméstico), e porque não dizer perigosos, ainda muito presentes no nosso dia a dia e que vem sendo permitidos e também incentivados de várias formas por anos e anos, atravessando gerações.

O que desejo destacar aqui é o impacto positivo da circulação de informações, das interações e das colaborações virtuais possibilitadas pelas novas tecnologias de informação e comunicação, em especial o papel das redes sociais, no engajamento e na visibilidade do movimento global a favor de agricultura urbana, sobretudo do conjunto crescente de pequenas ações locais, pulverizadas e de alto impacto, que nascem e prosperam em ambientes domésticos, comunitários, pedagógicos, como é o caso das escolas primárias, e que agregam um grande potencial transformador e exemplificador do que é possível fazer aqui e agora. Chamamos atenção para o fato de que a visibilidade alcançada por uma “pequena ação” num post, hoje, pode ser entendida como uma semente promissora do amanhã se reconhecemos o potencial multiplicador e influenciador dos conteúdos que circulam na rede da forma como já acontece.

E você? Por onde anda navegando?

Cabe a cada um de nós escolher uma forma de participar no real ou no virtual, plantando alimentos ou ideias, fortalecendo os grupos que já existem ou criando novos, intervindo positivamente nos espaços e (re) inventando nossa sociedade e a nós mesmos, num mundo que merece ser mais verde como antes e mais harmonioso como nunca. Se a Internet tem muito para nos contar sobre cultivo, imagina a própria natureza? Comece a observar e você se surpreenderá. E mais um detalhe, não deixe de compartilhar suas descobertas e aprendizados. Eu aposto que tem muita gente interessada em te escutar, basta procurar!

Reflita!
Coluna Agricultura Urbana e Práticas Sustentáveis
Simone Cota

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